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Berrini 

Por ocasião da  morte do arquiteto Carlos Bratke, a folha do dia 09 de janeiro  noticiou “Ele também fez da casa que construiu para viver com a família no Morumbi, na zona oeste paulistana, um projeto nada convencional, invertendo a posição dos quartos e das áreas de estar -ali, os espaços de dormir ficam no piso inferior à sala, algo que pensou para isolar a residência dos barulhos da rua.”

Na construção de nossa casa , localizada num condomínio , minha esposa queria que tivéssemos invertido a posição tradicional de fachada  ,  voltando a  sala  voltada para o muro , não acatei, mas teria sido mesmo a melhor opção no que tange a privacidade . 

Bratke era considerado o “arquiteto da Berrini” , bairro paulistano que abriga muitas  das principais corporações empresariais. As fachadas de vidro ,aço e alumínio são a marca registrada . O uso destes materiais ,mais o concreto ,foram determinantes para o surgimento das grandes lajes corporativas de pé direito elevado , coqueluche até há pouco tempo  atrás, mas que hoje em dia empresa alguma  tem coragem de contruir.

Uma vez desci com a família na estação de metrô da Berrini e resolvemos alcançar o shopping JK Iguatemi a pé, uma maratona que levou mais de duas horas , ao menos conhecemos uma grande quantidade de seus prédios . À medida que a noite caia e não chegávamos ao ponto final , aumentava a sensação de solidão, pois só cruzávamos com automóveis . 

Fosse na  Paulista não passaríamos por tal incômodo . Fadada ao ocaso na época do estrelato das lajes corporativas, ou no mínimo desdenhada enquanto  futuro endereço de empresa , a Avenida  voltou a merecer todas as atenções, justamente por possuir características opostas  à Berrini; muita capilaridade, plantas menores ,projetos mais humanizados, opções variadas e baratas de serviços , gente o tempo todo e um forte apelo cultural, que em 2017 será reforçado com a inauguração de três novos polos  ; a Japan house, o novo sesc paulista e o instituto Moreira Salles da Paulista . 

Construção histórica preservada na Berrini

A indústria do turismo, ou, bem que minha vida poderia ser andar por este país. 

1- Em Paraty de fato encontra-se com turistas estrangeiros a todo instante nas vielas da cidade histórica, muitos europeus. Bem conservada , histórica , FLIP, turismo caro , praias de águas mornas em meio à mata exuberante, Paraty fica. 

2- Cabo Frio é de fácil acesso, praias bonitas , vias duplicadas e privatizadas permitem ao carioca ir  e voltar num dia só, e  Minas  é “pertin” …,Cabo Frio fica.

3- Búzios é meio termo entre as duas anteriores, vive bem com a fama do passado, moda e gastronomia lhe garante glamour , Búzios fica.

4- Petrópolis conservou a história, o que não é pouca coisa , e se atualizou , como  no caso das visitas a cervejarias tradicionais. O acesso à cidade , por vias duplicadas , requer cuidado , mas não mete  medo como antes, Petrópolis fica.

5 – Inhotim é o Brasil que pode dar certo , orgulho da raça, Inhotim super fica.

6 – Congonhas do campo abriga as principais obras em pedra sabão de Aleijadinho, que não deve nada a Michelangelo , deveria ser mais cuidada . Parece que na semana santa enche , o  acesso pela Fernão  Dias é tenebroso, como centro de devoção pode até se manter (Mas Aparecida do Norte fica a duas horas) , como atração temo, Congonhas pode ser que não fica .

O turismo, salvo a depredação inerente, é indústria limpa , e pode ajudar bastante o nosso país. Dois dos fatores mais importantes para seu sucesso são facilidade de acesso e limpeza e conservação. Em maior ou menor grau , todas as seis atrações listadas , sofrem devido a deficiências graves nestes dois ítens, e não apenas por falhas nas ações públicas  , a população é mal educada nas estradas e suja muito a cidade. O dinheiro gasto pelo turista em resorts é aproveitado por poucos , diferente do que acontece quando o turista circula, neste caso a cadeia movimentada é muito maior. 

Tem que circular, com segurança, e preservar. 

Petrópolis (RJ)

Imaginava o centro histórico de Petrópolis algo convencional, o quarteirão pavimentado em pedra de mão , uma igreja matriz na aresta mais elevada e ao redor, um conjunto de casas históricas.

Ledo engano …Capital de verão do país por 40 anos , quando D. Pedro II para lá se deslocava com a corte e permanecia por até 5 meses , a cidade é prova que o monarca não ia pra lá apenas para descanso .

Segunda cidade planejada do país, a primeira foi Recife , possui , segundo os moradores, a  mais bonita avenida brasileira, a major Koeler , em homenagem ao engenheiro que projetou Petrópolis . O córrego Quitandinha , onde ainda encontra-se carpas , entremeia as duas mãos da avenida , ladeada por belos casarões centenários, ainda pertencentes a famílias notórias.

De Petrópolis saía a primeira estrada macadamizada do país, rumo à Juiz de Fora, e em Petrópolis chegava a primeira ferrovia , construída pelo Barão de Mauá, que lá tinha residência, assim como Santos Dumont e Lucio Costa, que na verdade não tinha, mas projetou uma de suas primeiras. 

Dom Pedro II, Barão de Mauá, Santos Dumont, Lucio Costa, personagens à frente de seu tempo.

A pousada onde ficamos fica no alto de um  morro ,  o centro histórico num ponto mais alto ainda  , na verdade boa parte da cidade está assentada em morros, o que deve implicar em soluções originais de mobilidade e cuidados extremos quanto a defesa pública. Nesta hora lembramos de quantas vezes a cidade já foi notícia em virtude de tragédias provocadas por deslizamentos de terra , “_janeiro é época fraca de turismo devido às chuvas.”, nos conta o condutor de charrete. 

A cidade arborizada , cercada de montanhas , o córrego que corta o centro , os microônibus utilizados para vencer as vielas estreitas e inclinadas me fez lembrar de  Cali na Colômbia, esta última mais limpa e bem cuidada. 

Sede da primeira cervejaria do Brasil ,  a cidade faz juz à herança e , da mesma forma que as vinícolas no sul , lá o interessado pode conhecer à fundo a história e o processo de produção da bebida , além de degustar e  comprar uma grande variedade de tipos.

O ponto alto , como não poderia deixar de ser, é a visita à casa do imperador, hoje museu imperial. Além da arquitetura , mobiliário e jardins da antiga residência o local é utilizado como palco para eventos culturais . 

Fonte: Wikipedia 

Jardins.

Em Congonhas do campo (MG) a lojista reclama da perda da palmeira quase centenária , “_ e a que restou também está ameaçada…”, vítima de fungo, “_tivesse um jardineiro por conta…”, lamenta .

Inhotim conta com 140 jardineiros. No Valor de 16 de setembro Benjamim Paz comenta que só na formação dos jardins, onde chegou a contar com a colaboração do próprio Burle Marx,  teria gasto mais de R$ 350 milhões de reais . Impecáveis os jardins, não encontramos nenhum jardineiro no período de visitação . 

No museu imperial de Petrópolis, antiga residência do Imperador Dom Pedro II, os 150 anos de existência dão mais destaque ao jardim que moldura a atração que a manutenção propriamente dita .Segundo a Wikipedia, com mais de 100 espécies de árvores e flores de mais de 15 regiões do mundo , foi formado graças a parceria do monarca com o paisagista francês Jean Baptiste Binot. 

Embaixador Kyriakos Amiridis, ou, a Grezuela é aqui.

Em que pese me envolver com diretoria de comunidade grega há cerca de 25 anos e ter acabado de assumir a presidência pela quinta vez , o primeiro contato com o embaixador da Grécia me deixa sempre nervoso e inseguro pelo fato de não dominar bem o idioma , o que impossibilita ir mais à fundo acerca de temas de política e economia, substanciais para conhecimento mais aprofundado do país onde chega a autoridade. 

Mais imaginação que realidade, na verdade todos os embaixadores sempre me receberam muito bem e nunca se preocuparam, pelo contrário, sempre incentivaram ,o diálogo na língua grega , mesmo com todos os meus erros.

Com Kyriakos não foi diferente, sorridente o tempo todo , brincava bastante quando conversávamos e ,embora não dominasse bem o português,compreendia as brincadeiras que  eu e Adelson, seu motorista , fazíamos um com o outro , morria de rir e incentivava. 

Tendo sido cônsul no Rio de Janeiro entre 2001 a 2004 , e principal auxiliar de um dos embaixadores mais dinâmicos que já tivemos , percebia nele o  desejo de repetir algumas das ações de efeito, mas tinha claro que os tempos não eram mais os de opulência de então  , tanto para a Grécia quanto para o Brasil, aí inclusas as comunidades gregas daqui. 

Havíamos combinado uma sessão de cinema na embaixada neste final de ano , o que seria o primeiro de alguns eventos que organizaria com o intuito de trazer a comunidade para dentro da embaixada novamente , chegou a me ligar indicando dois filmes, mas a agenda atribulada de final de ano impediu  que o ajudássemos e ficou esta pendência .

Só uma vez vi este homem ,que vivia sempre sorrindo, chateado . Quando me lamentou o fato de um senador brasileiro dos mais famosos e bastante ligado à causa da educação, ter mencionado publicamente que o Brasil corria  o risco de se tornar  uma “Grezuela”, mal comparando o Brasil à Grécia e Venezuela.

Mostrou-me a carta que havia escrito em resposta oficial , me pedindo  opinião. Era uma carta muito educada, bem a seu caráter, na qual , ao invés de criticar o dito pelo senador, convidava-o para conhecer a realidade da Grécia e o que estava sendo feito para reverter a situação. Disse a ele que faria outra em nome da comunidade grega de Brasília (não fiz), e me alertou para que fosse ponderado e construtivo.

Pensar que meses depois desta conversa , o destino reservava a ele a missão de pagar com a vida ,que não estamos em condições de nos comparar a nenhum outro país e que em vez de fazer anedotas,  deveríamos cuidar melhor de nossos flagelos.

Conversando sobre sua morte   , minha filha comentou que embora não o conhecesse bem  , estava com muita dó , porque o embaixador passava a ela a imagem de um homem feliz …

A impressão que eu guardarei também 

Congonhas (MG)

Em conversa com meu tio que mora  na Grécia , envolvendo as felicitações de final de ano , ele me conta que o que segura a economia do país é o turismo.

Pergunto a uma das proprietárias de lojas de souvenir se o fluxo de turistas em torno do santuário barroco de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas (MG), que desde 1985 é considerado   Patrimônio da Humanidade pela Unesco , aumenta no verão e ela diz que não , “_ o povo desce para a praia.”…”_E o turista estrangeiro.” , indago, “_Este raramente aparece.” , retruca.

Na Grécia, a substituição das Cariátides  por réplicas não afetou o fluxo de turistas para  o parthenon , e  estes , dificilmente deixam de pagar ingressos para  ver as originais, além de outras relíquias,  no museu , localizado ao pé da colina.

Em congonhas escuto resenha curiosa de um guia a grupo de turistas; o instituto de preservação do patrimônio histórico (IPHAN) tentou fazer o mesmo que os gregos e transportar do pátio da igreja os 12 profetas  , obra seminal de Aleijadinho esculpida em pedra sabão , para dentro de um museu ,  com a intenção de preservá-las da ação do tempo, poluição e vandalização, mas a população não concordou e sugeriu em troca uma envoltória de vidro no próprio local, aí foi a vez do instituto não concordar. “_Enquanto brigam , as esculturas estragam.”, conclui o ajuizado guia.

A proprietária de uma das lojinhas  de souvenir em redor da igreja nos confidencia que liquida o estoque , pois terá de entregar o ponto , já que , com o que fatura , não consegue mais pagar o aluguel de um salário mínimo à diocese local e sustentar a família. 

Minha mulher conta que as belas louças fabricadas na cidade de Monte Sião que lá encontramos ,  são vendidas a preço bem mais alto em Brasília. 

O guia turístico, a pequena proprietária e o funcionário da cerâmica em Monte Sião , precisam que a igreja e suas esculturas estejam em perfeito estado para que atraiam o turista , do contrário ficam sem emprego , sem emprego , migram para Belo Horizonte e vão morar na periferia, numa cidade como Mario Campos, mencionada no post https://paraconstruir.wordpress.com/2016/12/27/inhotim/, que irá se degradar cada vez mais.  

Inhotim 

Depois da dificuldade para a chegada à estância onde pousaríamos, o que chama a atenção, é a pobreza da região onde se localiza o museu de Inhotim. Percepção que será confirmada no dia seguinte, durante o trajeto de 20 km que nos separa da atração.

Belo Horizonte -Contagem-Ibirité-Mario Campos-Brumadinho (onde fica Inhotim), é o caso típico de conurbação em que ,à medida que nos afastamos do vetor principal, mais escancarada é a degradação da qualidade da infraestrutura pública. Inhotim pode servir de barragem de contenção e Benjamim Paz, criador do museu , tem esta noção…

Em matéria publicada no Valor de 16 de setembro deste ano, ele apresenta sua visão de  futuro , “Vejo aqui várias vilas para as pessoas morarem. Essas vilas virão todas por meio de investidores. Podem ser casas pequenas, desde que haja bom gosto e beleza. Claro, com aeroporto [cujas terras ele afirmou já ter adquirido]”, diz Paz. “Esse é o futuro: casas totalmente autossustentáveis.”…Desmanchar a periferia e transformar em vilas para as pessoas terem vidas dignas.”

Quando se chega ao museu a má impressão é completamente esquecida e o paralelo é imediato, Disney World, que é ambém citado pelo empresário na matéria, “Inhotim é uma start up de uma empresa grande, start up de um selo que segue o mesmo rumo da Disney World”, diz. “Quando se fez o primeiro parque da Disney, os donos sabiam do potencial de retorno. Esse paralelo é óbvio. Você vai pertencer a uma coisa inteligente.”

Inhotim já ajuda bastante , a motorista de um dos carros elétricos que transportam visitantes pelo parque , me conta que mora em Mario Campos,onde fica nossa estância , e há 800 funcionários empregados diretamente no museu. E os efeitos indiretos? Quantas pousadas funcionam no local ? Fornecedores?

Benjamim é empresário do setor siderúrgico e ganhou bastante dinheiro com a valorização das commodities a partir do início dos anos 2000. Poderia ter feito muita coisa com tanto dinheiro, mas preferiu gastar bilhões de reais numa atração que reúne beleza artística e natural em um nível sem paralelo no mundo. Parabéns pra ele.