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Vida e arte.

O duelo entre incorporadora e a última moradora do edifício “Aquarius” acabou levando o debate acerca do filme pernambucano para além das páginas da crítica especializada de cinema e no domingo , 25 de setembro, o economista Samuel Pessoa participou também com sua contribuição em coluna na Folha.

O roteiro operado pela empresa serve de guia acerca de ações que devem ser evitadas em negociações como a apresentada no filme…
Tratar da venda de imóvel com cada morador em separado ao invés de se estimular uma saída conjunta , de preferência tomada em assembleia de condomínio ,demonstra ignorância(não se informaram sobre eventual necessidade do aval da moradora para demolição do prédio antigo?) ou soberba(se tinham conhecimento de seu  forte apego  pelo imóvel, não teria sido melhor concluir antes com ela as negociações?).

Depois do caldo entornado, afinal devem ter assumido uma série de compromissos com terceiros relacionados à construção de um novo empreendimento no lugar do antigo, pioram ainda mais a situação ao abusar de abordagens amadoras e antiéticas; persuasão a partir de folders produzidos pelo departamento de marketing (Scatch up coloridos e obscuros) , reuniões às escondidas com os herdeiros da proprietária, pessoa instruída e sabedora de seus direitos ,e intimidações através de terceiros.

O economista enumera razões de impacto social que poderiam justificar a concretização do negócio, “aumento de apartamentos em Boa Viagem…aumento significativo de IPTU para a prefeitura… empregos e da renda durante a construção e vários depois dela.”. São justas , mas nos dias de hoje já não dizem tudo , às vezes nada , afinal a moradora poderia contrapor ; 

  1. “_Para que mais um prédio se quando dá 15h00 nem bate sol na praia tamanha a quantidade e altura de prédios já existentes?”
  2. “_Com tanto IPTU já arrecadado com os imóveis comercializados nesta praia nunca resolveram o problema do saneamento básico e o esgoto continua correndo para o mar.”
  3. “_Mesmo com o emprego e a renda ganha na obra, este trabalhador não deixará de morar na favela Nova Brasília aqui do lado para se mudar para um bairro que fica a dezenas de quilômetros do centro de Recife e de difícil acesso .”

Perguntado na semana passada ,em dois debates distintos, acerca de qual será o novo cenário para as construtoras no Brasil , o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) , José Carlos Martins, respondeu que seria um em que teriam de se guiar por ética e competitividade….

A empresa apresentada no filme demonstrou não estar atenta a nenhum dos dois quesitos acima. 
Vida imita a arte e , exageros à parte, a história está longe de ser mera obra de ficção. Por anos lá na comunidade grega fomos abordados por representantes de incorporadores que teimavam em tentar nos convencer a permutar nosso terreno com base em argumentos frágeis e incompletos. 
Outra coisa que temos lá em comum com o filme são os tais cupins de demolição, cartada desesperada da incorporadora no filme para obter seu intento. Não imaginava que eram tão perigosos e já estamos tratando de exterminá-los. 

Pensar grande.

No Valor deste final de semana  o empresário Bernardo Paz, proprietário do museu a céu aberto de Inhotim , diz que sonha com o dia em que “…vilas de casas pequenas de bom gosto e beleza , …com terreno  suficiente para que donos façam hortas que preencham parte grande de sua alimentação…” sejam construídas em volta de sua obra, que segundo ele ,”…segue o mesmo rumo da disney world.”

Mais adiante, noutra matéria, o premiado arquiteto japonês kengo kuma , que assina o projeto da Japanhouse na avenida paulista e que será aberta à visitação em 2017, avalia que “A arquitetura deve ser uma moldura da natureza” . Nos seus projetos “…utiliza materiais como argila, bambu, pedra , madeira … e busca harmonizá-los aos lugares onde estão.”

Durante o  BIM Leadership Forum 2016,  realizado em São Paulo nos dias 13 e 14 de setembro , o arquiteto do escritório britânico da Foster and partners causou impacto  ao comparar ,numa mesma tela , o novo aeroporto da cidade do México ao do prédio do WTC , onde se realizava o fórum…, era como se comparássemos uma colossal aranha caranguejeira [formato do aeroporto] com uma  joaninha…

…Mas o WTC já é um colosso!

Num primeiro momento chega a ser difícil ligar  as obras geniais dos dois personagens da introdução do post a ideais tão modestos como os que expressam . Temos a mesma dificuldade  em explicar o BIM , tecnologia sem a qual não se  viabilizaria a “aranha”, para o profissional  que passa o dia projetando ou construindo algo bem menor que joaninhas .

De volta ao Valor , o chef peruano Virgilio Martinez , proprietário do quarto melhor restaurante do mundo, segundo a The World’s 50 best, usa seu trabalho também para sensibilizar as pessoas a retomarem o contato com o campo e não se renderem alienadamente à industrialização; em seus restaurantes não é servido açúcar industrial, mas “cristais da polpa branca de cacau, desidratada e seca com tapioca…”.

Lá em casa não consegui deter a chegada do ar condicionado ,que há três anos é posto para funcionar cada vez mais cedo . Acho que não cuidei como deveria do isolamento térmico , penso agora numa piscina de bolinhas de vermiculita na laje, mais leve e fácil de executar que uma horta comunitária [certamente a melhor solução para os três personagens do post] em cima da casa.

A  Japan house é uma iniciativa do governo japonês  para aproximar os povos dos dois paises, penso aqui se lá no terreno da comunidade grega não caberia uma Greek house  …com projeto  de algum arquiteto grego renomado… 

Vira-lata 

Se reparar bem você não encontra mais cachorro vira-lata andando pela rua, claro que me refiro aos centros urbanos. Se você for bom observador, e morar numa região onde eles existam, perceberá que começam a surgir apenas com o desenrolar da noite, quando o movimento de carro e gente diminui, e tornam a desaparecer logo após o nascer do sol, quando gente e carro tornam a circular. Não podem mais ser classificados como animais domésticos , têm hábitos mais parecidos com os de bicho selvagem de vida noturna…só não são selvagens porque a fome os corrói, esgueiram-se para se proteger do predador, nós.
No Valor de 4 de setembro o urbanista Jaime Lernner critica o programa minha casa minha vida, mais exatamente o fato dos imóveis serem construídos majoritariamente na periferia das cidades . Longe de qualquer infraestrutura , o programa acaba se tornando um baita estímulo para a proliferação de automóveis, “o cigarro da era moderna” ,segundo o urbanista, afinal a população lá assentada precisa da cidade para obter meios de sobrevivência.
No Estadão de 31 de agosto a notícia de que a ressaca da bolsa , rebordosa de outra maior, a da economia como um todo, afetou brabamente o dia a dia das grandes incorporadoras, a ponto de que as sobreviventes, ainda grandes, contarem com poucos empreendimentos em andamento, o que deu margem para a ascensão de cinco outrora pequenas e médias empresas ,até então desconhecidas, ao ranking das dez maiores incorporadoras do país. Em comum entre elas o fato de construírem dentro do PMCMV, caso também da única grande incorporadora, a não ter tido tanta dor de cabeça com a crise.
No mesmo dia , mas no Valor, matéria com o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), Walter Cover, que avaliando os impactos da queda de produção do setor da construção no segmento que preside lamenta que “O programa[PMCMV] já foi responsável por mais de 10% da venda de materiais de construção, fatia que é, atualmente, de 6%”.
Com o amanhecer do dia, quando desaparecem de nossas vistas , não tenho ideia para onde vão os cães vira-latas, mas em algum lugar posam, pois tornam a aparecer quando a noite cobre tudo.

 Preservar a história-I

No Estadão de 25 de agosto a notícia de que neste último final de semana “mais de cem imóveis históricos de São Paulo serão abertos ao público durante a 2ª edição da Jornada do Patrimônio...”.Casas, edifícios e até um trecho de ferrovia, restaurados ou preservados , expostos para visitação. 

Profissionais de todos os setores da cadeia da construção deveriam seguir este roteiro para dele obter ensinamentos que interferissem na melhoria da qualidade de suas ações,  da criação até a aplicação de um produto  ou sistema.

Recentemente , passeando pelo centro restaurado do Rio de Janeiro, me peguei fazendo um paralelo entre a beleza e o estado de conservação de dois prédios vizinhos, apresentados num par da trinca de fotos que ilustram o post. 

O prédio centenário , basicamente repintado, chama muito mais a atenção que o de fachada espelhada, onde os rastros  deixados pela  mistura de infiltração e poluição passam a percepção , não de velhice , mas de decadência precoce. 

Decadência que não se vê em outros prédios antigos do centro , que mesmo  não tendo sido reformados como o da fotografia,  mantém-se íntegros, graças ao zelo dos técnicos de então em dotar as fachadas ,e seus componentes ,de uma série de elementos construtivos , que além de embelezar , protegem  estas relíquias das intempéries .

Os janelões de ferro utilizados na construção do salão da Comunidade Grega de Brasília foram arrematados há mais de 30 anos num leilão das partes não atingidas pelo incêndio que destruiu o Brasília Palace Hotel, projeto de Niemeyer e primeiro da cidade.

São janelas  do mesmo tipo das utilizadas nos prédios das primeiras quadras residenciais de Brasília,que vão aos poucos desaparecendo com base em pretextos variados ,dando lugar a esquadrias de alumínio de qualidade e beleza questionável.

Chamado recentemente para desemperrar um destes janelões, o  serralheiro nos informou que deveríamos  trocar os rolamentos das esquadrias. Quase 60 anos de uso , metade no hotel e metade na comunidade grega ,e a única correção  necessária é a troca dos rolamentos! 

Um trambolho pesado , candidato à troca na primeira reforma? Uma janela de ferro  pode significar muito mais para a história, cultura , arquitetura e engenharia de uma sociedade. 

No  caso da comunidade grega , tratou-se de uma simbiose. Da cidade que ajudou a erguer ,reaproveitou-se um pedaço para sua casa construir. Casa  que neste final de semana ,a exemplo do que ocorreu em São Paulo, foi aberta ao povo de Brasília, para que lá pudesse celebrar e conhecer um pouco mais das tradições gregas . 

Jogos Olímpicos – Plaka

Se for pensar no legado da olimpíada levando em conta o custo das obras do parque olímpico e de mobilidade a conta não fechará. 

Difícil obter retorno  complexo esportivo daquele tamanho, e por mais que se faça em favor da mobilidade urbana , ainda é difícil  vencer o automóvel enquanto este representar um misto de item de primeira necessidade  e status .

Mas na conta que mais interessa a conta dará lucro sim…

Em Atenas há um bairro boêmio no centro da cidade chamado “Plaka”. Um labirinto de vielas estreitas repleto de lojas , restaurantes, pequenos hotéis, espalhado em meio a ruínas milenares. Um emaranhado por onde  aquele que  passeia , vai se “perdendo”  até passar para outros bairros , num processo contínuo, sem se dar conta depara-se com museus, igrejas bizantinas e toda uma gama de atrações e novidades. 

A derrubada do elevado da perimetral, juntamente com as obras de mobilidade e a construção de megaestruturas como o museu do Amanhã e o aquário deu ao Rio a mesma condição que Atenas e outras capitais europeias têm de oferecer ao público uma opção barata, democrática e rica de relacionamento com sua história e cultura.

Os personagens de Machado de Assis, Lima Barreto, Alvares de Azevedo caminhavam por ruas como a da Alfândega, Quitanda, Ouvidor, muito antes de existir o calçadão de Copacabana. Há praças, igrejas ,mosteiros , prédios de fachadas barrocas imponentes ,de uma época em que o Brasil chegou a ser sede do Império Português, envelhecidos mas bem preservados, à espera de nossa visita. 

O reencontro do povo com sua cidade valeu ouro.

Jogos Olímpicos – Rio de Janeiro

Andei nesta cidade durante estes dias como se andasse na Disneylandia ou em qualquer cidade da Europa.

Desde o dia em que uma de minhas filhas chorou ,a outra temeu e minha mulher se preocupou , decidi que viria pra cá sem temor , seguro , mas tranquilo, de formas a poder desfrutar ao máximo a experiência única.

Fui a todos jogos  para os quais adquiri ingresso e  aqui comprei para outros mais . Usufrui ao máximo do que o transporte público poderia me fornecer , complementei lacunas estreando com o uber e ainda andei com  táxi.

Transitei à vontade  por bairros da zona norte e sul preocupado apenas com ângulos bacanas para fotos tiradas com celular de última geração, manuseado à vista de todos ,em qualquer situação que tivesse desejado.

Fui contra a opção de organizarmos os jogos olímpicos no país . Não entendo como e porque precisamos deste anabolizante para aumentar o desempenho das ações públicas em favor da cidade. 

Mas fiz minha parte, compareci, gastei, chafurdei e agora agradeço . 

Tomara que tenham tino para fazer de todo este esforço apenas o recomeço em favor desta cidade e não o último estribucho de  um moribundo.

Jogos olímpicos-BRTour

Pela janela do BRT vejo a zona norte carioca passar, como se assistisse a um documentário de TV.

Olaria, Penha, Madureira, Jacarepaguá , nomes tradicionais que você conheceu de algum livro, filme ou música de qualidade, mas que hoje , exceção dos que lá vivem ou de lá vieram, habitam apenas o imaginário popular. 

Muito tempo antes de existir  favela , já havia bairros como Olaria e Penha . Escolhidos para lá se morar por opção e não por necessidade , tiveram tempo para serem planejados como qualquer bairro da zona sul, de tal forma que a vista do conjunto bem impressiona. As residências estão lá, geminadas , alambradas e bem acabadas (nos vários sentidos da palavra).

Madureira é o filme em 3 D. O comércio quase que invade a “tela” do BRT. Calçadas com prateleiras mostrando moda e piraquê , obstáculos para um formigueiro de gente lá despejadas a partir de tantas esquinas (as do samba?), como se fosse linha de produção.

Jacarepaguá veio bem depois das outras . Fica na fronteira entre a zona norte e a Barra e esta dúvida de natuteza talvez seja a razão da paisagem ali mais parecer a da  boca  cuidada na medida da possibilidade  do orçamento  , com todo o tipo de bloco, altura e acabamento.

Proposital ou efeito incidental o passeio vale à pena.O cenário que apresenta não é maquiado, é o cotidiano, de uma época em que a cidade não precisava de olimpíada para se autoafirmar. Tomara que a dificuldade de entrar com as malas no vagão não sirva de desculpa para o turista escolher a velocidade  da via amarela .