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A tragédia na Grenfell Tower e as lições – I

No jornal inglês The Guardian de 15 de junho,  a notícia de que o revestimento em alumínio da fachada , introduzido durante reforma realizada no ano passado na Grenfell Tower em Londres,  teria sido o responsável pela propagação extraordinariamente rápida das chamas , o que agravou a tragédia que até agora ocasionou a morte de 17 pessoas.

Segundo a matéria,  em Melbourne na Austrália , material similar usado em situação idêntica também contribuiu para propagação de incêndio no Lacrosse building em 2014 . Na ocasião, foi verificado posteriormente pela  Australia’s national science agency, the CSIRO,  que  de fato o composto da fachada era combustível e não estava de acordo com o código de obras local. Auditoria feita pela Victorian Building Authority (VBA) em 175 edifícios da cidade de Melbourne detectou que 85 não estavam condizentes com o Australian building codes, código australiano de obras, no que tange à proteção da fachada contra o risco de propagação de chamas.

Embora se restrinja a analisar com profundidade o problema australiano , a matéria informa que caso de incêndios envolvendo revestimento de fachada em alumínio já ocorreu na França, Emirados Árabes, Estados Unidos , Corea do Sul .

Mas e no Brasil ? Ainda é cedo para fazer inferências e comparações  acerca do tipo de material lá utilizado e o que usamos cá, de toda a forma aqui no Brasil este tipo de material parece ser bem mais utilizado em prédios comerciais e de alto padrão e no caso londrino teria sido uma opção barata para reforma de prédio popular. Aliás, há notícias de que teria sido oferecida a opção do tipo  inflamável e a não inflamável , o que por si só já torna a situação absurda! Como imaginar que é fabricado, e em Londres, um tipo de material que põe em risco a vida dos moradores de um prédio , afinal há todo o tipo de possibilidade de surgimento de um foco de incêndio, no caso de Londres informam que pode ter sido um curto num refrigerador com defeito, em Melbourne foi um cigarro mal apagado na varanda do apartamento.

O fato de tamanha tragédia ter ocorrido numa das cidades que mais utilizamos como emblemática em termos de qualidade e cuidados na arte da construção e preservação e a forma aparentemente descuidada , pra dizer o mínimo , utilizada na escolha dos materiais mostra que ninguém está imune a cometer erros graves , até mesmo quando ela interfere segurança de seres humanos .

Muitas vezes somos questionados quanto ao rigor cobrado na elaboração de uma norma técnica na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ou na aprovação de um novo produto a ser utilizado nos processos construtivos pelo SiNAT (Sistema Nacional de Avaliações Técnicas) . Burocracia, demora , letargia, dificuldades de toda ordem à parte , estes mecanismos atuam como forte barreira de contenção em favor da segurança da sociedade, ao procurar evitar que produtos e sistemas de desempenho inferior , e perigosos, sejam inseridos no mercado. Tais barreiras são ainda mais eficientes se as reuniões de avaliação são concorridas e com representantes de todos os setores intervenientes ao tema; academia, construtoras, projetistas, indústria de materiais, instituições financiadoras….

Por terem um alto grau de P&D investidos , sistemas industrializados como os de revestimento em alumínio, contam ao seu favor de uma certa presunção de qualidade e desempenho que negamos a componentes e sistemas tradicionais , o que é paradoxal, pois estes últimos contam a seu favor até com séculos de análise de desempenho e os primeiros com poucas décadas. Aos fabricantes de inovação cabem agira com ética no preenchimento destas lacunas elaborando todo os ensaios necessários à certificação para uso nas situações almejadas e ao contratante, além de exigi-los, cabe  também a ética de não contratar tendo como base prioritária o menor preço.

A cultura de respeito a normas técnicas e processos, fortalecida desde a implementação da Norma de Desempenho há cerca de cinco anos atrás , tem muito a contribuir na resolução deste dilema ….

Ricardo Gutierrez 

Ano passado o Vicente conseguiu juntar num grupo de WhatsApp nossa turma de 1986 . A ideia era comemorarmos os trinta anos de formatura, mas acabou que não deu liga . Tanto tempo passado  sem nos reencontrarmos , muitos de nós morando  noutras cidades e, para piorar , o sistema de turmas por semestre na UnB especialmente cruel conosco , teve gente que só se conheceu no dia da foto oficial.

Ricardo Gutierrez era um dos formandos. Boliviano, veio para o Brasil apenas para os estudos e com o diploma na mão voltou para a terra natal , onde a família tinha lá sua tradição.

Nesta segunda-feira o Luiz Eduardo me procurou pra saber se  ouvira algo sobre a morte de Gutierrez , ficou sem jeito de perguntar no grupo porque do grupo Gutierrez faz parte,  pesquisou na internet e infelizmente descobriu que estava correto . 

No link do jornal boliviano “el deber” a notícia” Ricardo Ortiz Gutiérrez, un hombre que trabajó por la cultura y el desarrollo del turismo sostenible de la provincia Velasco y de la Chiquitania en su conjunto , falleció este domingo tras padecer una enfermedad en los últimos meses…” 

A longa matéria (vale a pena a leitura) não descuida nem dos primórdios da vida acadêmica “…Graduado como ingeniero civil por la Universidad de Brasilia, Ortiz fue un reconocido gestor cultural, turismólogo, escritor, compositor, violinista, lutier, catedrático y conferencista.”

Como artista virtuoso e multifacetado que era, é possível que o estímulo ao desenvolvimento sustentável de uma região possa passar desapercebido de seu currículo, mas  há que se louvar o fato dele ter usado os conhecimentos adquiridos nas ciências exatas em favor de  causa social tão nobre e numa época em que tal preocupação não estava tão em voga. 

Estigmas mais ajudam a confundir que compreender. O comum é se pensar que causas sociais são restritas às cadeiras de humanas e o empreendedorismo , o desenvolvimento,  às de exatas. No geral pode até ser , mas está aí a história do Gutierrez, e de suas obras, pra derrubar este cartesianismo . 

Conquistei o direito de ser o orador da turma numa disputa apertada com Gutierrez. Lembro de ter escrito sobre minha preocupação em utilizar o que aprendêramos na universidade especialmente em favor dos menos favorecidos. Fosse pra hoje o discurso , complementaria, …exatamente como nos ensinou o Engenheiro Civil Ricardo Gutierrez.
 

Bim 11- Mal comparando

os guindastes portentosos, os perfis de aço e a laje em steel deck…

um grupo grande de corpulentos operários aguardando…

Na obra de recuperação da calçada…

Os indicadores demonstrados na palestra…

Duas obras ocorrem na mesma esquina…

 
Em frente ao museu , do outro lado da rua , aguardando o horário de abertura das portas , presto atenção nas obras de sua ampliação , projeto grandioso com inauguração prevista para 2019. 

Estão lá os guindastes portentosos, os perfis de aço e a laje em steel deck ,tudo coisa que a gente pode encontrar aqui no Brasil…mas em obra só de vez em quando.

Ao meu lado um grupo grande de corpulentos operários aguardando de despreocupados pela liberação de alguma frente de trabalho… já são 9h30 da manhã .
O condutor da van explica que são todos sindicalizados e que a força destas corporações é tanta, que todas as contratações são agenciadas pelos sindicatos. 

São muito bem pagos , cerca de US $ 45,00 a hora, e não é simples o processo de aceite da filiação por parte de algum interessado.
Na obra de recuperação da calçada não se nota muita diferença de similar brasileira , mas cuidado ! Você pode estar num daqueles jogos de sete erros; a tela de aço na calçada, a cerca de PVC para delimitação da concretagem, o protetor de papelão e a fita utilizados para a proteção do vidro , a falta de capacete do operário (mas pra que mesmo seria necessário um neste tipo de serviço?!) , você não vê fácil todo este apetrecho por aqui.
 O condutor da van me conta que os trabalhadores ilegais na construção civil são explorados a uma taxa de US $ 20 a hora em obras de pequenas reformas de imóveis, a construção informal.

Os indicadores demonstrados na palestra ministrada na autodesk em Boston ,pelo diretor responsável pela implantação do Revit ,mostram que a produtividade no setor da construção civil é baixa de forma generalizada no mundo . Voltando aos trabalhadores sindicalizados aos quais me referi nos primeiros parágrafos, não estão eles numa situação privilegiada? Afinal , em havendo trabalho, eles serão necessariamente contratados e pelo preço de mercado, pois as construtoras não sobrepassam os sindicatos aos quais pertencem. 

Duas obras ocorrem na mesma esquina , percebam nossas indefectíveis tábuas de assoalho sendo utilizadas na montagem do andaime fachadeiro. Moderno e artesanal convivendo em harmonia …no Brasil falta atravessar a rua. 

Quando entramos na obra de um grande arranha céu em Boston , a confusão…a cara , era a mesma das obras daqui , mas o cuidado objetivo e focado no que poderia por em risco a segurança do trabalhador (sem exageros) e a quantidade de equipamentos deixavam claro que não estávamos no Brasil. 
Me pareceu que o investimento em projeto é o que faz a grande diferença, o BIM acaba sendo mero desdobramento de uma cultura que se baseia na premissa de valorizar o pré obra, materializada na onipresença do arquiteto no canteiro de obras. 
De resto , nos Estados Unidos o profissional de engenharia e arquitetura só ganham a carteirinha de profissional depois de três e cinco anos respectivamente de “residência” , já no Brasil estagiário é quem supervisiona as obras.
Falta de treinamento da mão de obra até conta , mas menos do que se pensa.

Bim 10 – Acessibilidade em Nova York

Percorri a pé cerca de 200 km por regiões distintas da cidade de Nova York e há que se ressaltar o alto padrão de acessibilidade das calçadas de Nova York …a robustez, o espaço, a homogeneidade, o preenchimento das juntas , a constância e a qualidade da recuperação (usam tela de aço!!!) e , por fim , a existência de rampas em todos os locais onde necessárias. 

É comum ver idosos atravessarem as pistas com o auxílio de “andadores” e subirem nas calçadas sem serem incomodados pela turba que congestiona os passeios à espera do sinal verde . Natural deduzir que as calçadas são acessíveis porque o respeito ao idoso , a pessoa , é inerente à cultura. 
Importante frisar tratar-se de uma megalópoles com todos os problemas inerentes a cidades com características similares. Já no Brasil acessibilidade ainda é sinônimo de incapacitado …não entendemos que uma vez seus preceitos implantados com padrão básico de exigência, podemos estar evitando transtornos graves a um cidadão que esteja simplesmente lendo um jornal ou apreciando a paisagem enquanto caminha. 

Bim 09- Vencendo barreiras 

Rahissa Melo é brasileira e estudou pelo ciência sem fronteiras nos Estados Unidos, concluiu o curso de arquitetura no Brasil e acaba de ser contratada  por importante escritório de projeto em Boston, a entrevista foi à distância . Ainda terá de exercer os cinco anos de residência exigidos pela lei americana para qualquer profissional , americano inclusive, que almeje o título de arquiteto…já adquirido por outro brasileiro, Leonardo Caion, há mais de sete anos num dos maiores escritórios de projeto de Nova York e responsável por obras icônicas mundo afora . 
Curioso , pra dizer ao mínimo, como o arquiteto Horout Kelian consegue graças ao BIM, e seu talento, armazenar , acessar e disponibilizar todo o projeto de um empreendimento no seu smartphone. 
Os citados acima são apenas alguns dos profissionais latinos e asiáticos que nos expuseram projetos de magnitude e complexidade variada , os quais , se não existem ou existirão devido ao surgimento deste software , ao menos os têm liberado de forma inequívoca para cuidarem do que mais entendem …criar.
Indaguei ao diretor geral do escritório onde Leonardo trabalha sobre o número de nacionalidades distintas que lá trabalham. Ele pensou um bocado e respondeu , sem esconder um sorriso orgulhoso, “-são tantas que nem sei te responder” . 
Burocracia e políticas públicas de efetividade duvidosas podem inibir talentos , muros não.

Padeiro ou pintor , talento é o que conta

Bim 07- Falta de comunicação 

Bob é o gerente geral de manutenção do prédio que abriga os laboratórios de robótica, inteligência artificial e linguística do M.I.T, chamado Stata center , e participou de sua construção desde a fase do projeto. Projetado por Frank Gehry o prédio é icônico e vale à pena a visita, melhor ainda se assistida por Bob , pois uma série de histórias interessantes acerca da concepção, gênese e transcorrer do projeto serão contadas. 
De saída Bob nos explica a razão de terem agrupado num mesmo prédio o departamento de línguas e o de robôs…comunicação. 
Uma das tantas constatações que se faz acerca do que ele nos conta é que não havia como delegar o desafio do projeto de um prédio complexo e avançado a um arquiteto como Frank Gehry. Lembrar que naquela época , o prédio foi inaugurado há cerca de 15 anos atrás, softwares como os do BIM , imprescindíveis para tais desafios, ainda estavam em estágio inicial. 
A escolha de sistema construtivo inadequado para cobertura parece ter tornado o prédio refém de infiltrações e vazamentos. Segundo Bob , os engenheiros da obra alertaram para o perigo da escolha , todavia o escritório de arquitetura decidiu pelo processo que tinha relação com a história da cidade, os tijolos maciços…comunicação. 
A patologia crônica foi destaque em jornal da cidade na época e durante a visita que fizemos a dois escritórios de arquitetura de renome da região , a mera menção ao prédio do M.I.T recebia como resposta um comentário mordaz e sarcástico por parte dos arquitetos .  
Robôs não sentem inveja , humanos sim . 

Bim 06- A obra 

A parede de bloco de concreto de um dos subsolos do prédio parecia até a reprodução de uma foto ou um painel pintado, tamanha a regularidade da espessura e alinhamento das juntas de assentamento, verticais e horizontais , todas homogeneamente preenchidas. Foi o segundo detalhe que me chamou a atenção em meio a tanta bagunça.O terceiro foi que as instalações são executadas em sequência contínua à desforma e limpeza do andar , transcorrem rapidamente com dois andares de atraso apenas em relação ao que será concretado.

O primeiro foi mesmo a bagunça relatada no parágrafo introdutório ,mas bem entendido que em meio a todo o caos, qualquer ponto de atenção está bem sinalizado. Isto e equipamentos e maquinários de primeira geração parece ser o suficiente para garantir segurança e saúde de trabalho a operários que contam com as EPIs necessárias , mas que parece não recebem uniformes dos contratantes .