Skip to content

14 anos 

Na saída da reunião , Eduardo me informa  estar interessado em apresentar num dia qualquer o radier que ele e o Renato executaram para uma obra sua de minha casa minha vida em Samambaia . 

A solução original para a fundação não parece ter sido a única inovação utilizada no empreendimento . Há também uma parede de bloco de concreto recheada de areia e cal para garantir o requisito mínimo de isolamento acústico entre ambientes,exigido pela ABNT -NBR 15575, norma de desempenho,e agora também pela Caixa , agente financiador da obra. 

Não costuma ser alvissareiro o trabalho de quem procura unir grupos em torno de ideias inovadoras, mas nossas reuniões mensais já ocorrem há 14 anos . Começamos sempre às 8h00 em ponto ,com qualquer quorum , e as 9h30 terminamos , pra dar tempo de os presentes interagirem até por volta das 10h00 . Estou seguro que esta meia hora de “recreio”foi determinante para que , com base nos relacionamentos forjados, parcerias como as do Renato e Eduardo fossem formadas em favor de uma obra melhor executada. 

Agora na presidência da comissão de materiais da câmara brasileira da indústria da construção (CBIC) estou pensando em transformar a experiência com a parede de bloco recheada com areia em cal numa ficha de avaliação de desempenho (FAD) , começar a enriquecer o catálogo de desempenho da Caixa , facilitar a vida do construtor , continuar a juntar pontas .

O Banco do Brasil 

A vista do prédio onde até há pouco tempo funcionou a sede do Banco do Brasil é bela de qualquer ângulo que se queira ver . Quando realçada pelo brilho do sol de Brasília merece uma foto.

O saguão de entrada vale uma visita , lembro da vez que ganhamos a concorrência da reforma do lat out das dezenas de caixas da entrada , contra cinco empresas apenas , alguém imagina? 

Na época não existia ainda piso elevado e a plataforma era feita com vigotas de madeira. A que instalamos exalava um odor acre natural , tivemos que trocá-la toda , até hoje quando sinto este cheiro peculiar me lembro da obra.

Mas os raios de sol aos quais me referi no primeiro parágrafo servem também para realçar detalhes da fachada hoje inexistentes nos de pele de vidro , solução de criatividade preguiçosa que é, que no máximo permite o desenho da loga marca do ocupante. 

Na Folha de 16 de agosto a resenha do livro “São Paulo nas alturas ” ,do jornalista Raul Juste Lores, que conta a história de prédios emblemáticos antigos da cidade . 

Há anos me cobro uma visita a algum deles, uma aula prática de como construir bem e bonito. Época em que fachada servia para mostrar e não para esconder. 

Artistas

Depois de 35 anos os banheiros da churrasqueira serão reformados e as paredes ficarão parecidas com paineis de Athos Bulcão. 

Até onde vai  a originalidade do povo da cerâmica ? O genérico de um dos maiores artistas brasileiros , por R$ 80,00 o m2.

No Globo Repórter de 11 de agosto a história do garoto Mateus, que tinha tudo para dar errado na vida , mas depois de passar parte da infância ilhado em cima da cama para se livrar dos alagamentos provocados pelas constantes cheias do tietê, tornou-se engenheiro civil e aos 22 anos de idade abriu uma empresa ,que  já realizou , em 12 vezes sem juros, mais de 300 obras de cunho social em moradia  de gente dos bairros mais carentes da periferia paulista.

Segundo Mateus, são  obras simples que resolvem problemas de vazamento, infiltração, umidade , ventilação…, pequenos transtornos que não solucionados tornam a vida do morador um inferno.

Dona Sueli tomava banho num banheiro sem cerâmica e agora está toda faceira  com o banheiro de cerâmica branquinha. Não descuidaram de nada , a bacia é de caixa acoplada, que além de contribuir pouco para o Tietê já bastante assoreado, vai servindo também de prateleira , ao menos enquanto ela  não disponha de R$ 35,00 para comprar um destes armários de alumínio com espelho , ou um pouco mais ,  R$ 55,00 , se quiser comprar de PVC para combinar melhor com o branquinho do banheiro novo. 

Plantão Médico

A torneira que pinga por horas sem parar , a parede do guichê desgastada , as portas sem fechadura , o bebedouro desmontado , a papeleira destruída , podem muito bem espelhar a quantas andas a manutenção de um  determinado hospital público brasileiro , e a raiva que transtorna quem chega com a mãe perdendo o fôlego de tanto tossir e descobre que clínico médico não há ,pode sacramentar o triste veredito de decadência.

O fio de esperança fica por conta, ainda bem , pelo que se percebe daquilo que conta . Como a fruta meio passada, que se retirarmos o estragado ainda nos reserva muita benefício e  sabor, quem passa pela peneira e precisa do leito do box é bem atendido. A enfermaria lembra aquelas de filme de guerra, dezenas de camas dispostas lado a lado separadas, se preciso , por uma cortina . No  box da emergência , leitos em pontos extremos, são monitorados ,a partir de uma ilha central informatizada, por uma equipe diligente de médicos e enfermeiros. Tudo parece funcionar bem.

Salvo engano o hospital deveria contar com os serviços de uma empresa de engenharia , que cuidasse do vazamento da torneira e garantisse água no bebedouro deste tipo de serviço . Mais ainda , deveria haver verba para troca da porta de um banheiro público , diariamente utilizado pela multidão de pacientes e acompanhantes que procuram o hospital.

Um dos maiores hospitais públicos da cidade , o HRAN (Hospital Regional da Asa Norte) é um colosso construído em 1984 . Não deve ser fácil mantê-lo operando no padrão que a comunidade mereceria . De que forma uma política estruturada de manutenção preventiva e corretiva poderia contribuir para que a casca da fruta, demonstrada no primeiro parágrafo, fosse bem conservada como o miolo ainda demonstra ser?

Penso nas dificuldades orçamentárias do governo para canalizar a verba ideal para a referida manutenção, nas brechas da lei que permitem a vitória de empresas sem a mínima condição de desempenhar com eficiência tão importante função, ou nos desvios éticos que fazem da prestação deste serviço ralo de todo o tipo de desperdício. Não sei se tanto quanto a medicina , mas a engenharia evoluiu bastante nestes mais de 40 anos da inauguração do hospital , portanto há sim meios para garantir uma qualidade operacional na gerência do prédio à altura do padrão do serviço para o qual foi concebido.

A W-3 poderia ser a  Avenida Paulista do Brasiliense, ao menos aos domingos. 

Nas duas últimas edições dominicais, o Estadão destaca a verve cultural da Avenida Paulista, fortalecida agora com as inaugurações dos centros culturais Japan House, Instituto Moreira Sales e o Sesc 24 de maio, que se juntam a outros já em operação na avenida ou em seus arredores, todos ao alcance de uma boa caminhada . Melhor impossível.

O fechamento da avenida para o trânsito de veículos aos domingos  servirá para reforçar tal vocação . São milhares de pessoas, provável que milhões, que por lá circulam em busca não apenas de esporte e lazer , como é comum nestas iniciativas, mas também de cultura e arte ou todo o tipo de sociabilização que o contato mais tranquilo e profundo com o principal símbolo da cidade , revigorado, permite.

Bom para todo o mundo , pois paradoxalmente,durante o período em que a avenida fecha, a economia, formal e a informal , gira, pois o povo que por lá passeia consome na rua , parques , museus , galerias , livrarias, shoppings, restaurantes…

Brasília também tem sua avenida símbolo, a W-3, que à época da fundação da cidade era a rua da moda . Hoje , em declínio contínuo e sistemático, serve de exemplo mor para todo o tipo de debate e discussão acerca da perda de entidade do patrimônio cultural da humanidade. Embora sem contar com a pujança do capital paulistano , seu recrudescimento também poderia passar por uma ação conjunta entre iniciativa privada e governo que passasse pela reinauguração de centros de cultura  lá existentes , tais como o “Renato Russo”, a biblioteca demonstrativa , o teatro da escola parque, o Sesc, o que estimularia  o surgimento de um comércio afim. 

Para que a população acompanhasse o processo e reaprendesse o endereço histórico, porque não se fechar a W-3 em vez do Eixão aos domingos? 

De Canção em Canção.

No filme de Canção em Canção de Terence Malick, em cartaz nos cinemas de Brasília, as casas espetaculares , hollywoodianas, que vi na apresentação do arquiteto do escritório Oppenheim Architecture em Nova York. Projetos para milio e bilionários ,no cume de montanhas , à beira de praias paradisíacas, nas copas de árvores de florestas tropicais, em desertos , incrustadas em rochas…

Antes da apresentação o arquiteto nos pede para que não fotografemos os slides, mas no site do escritório alguns podem ser admirados. Projetos tão belos e surpreendentes , apenas possíveis graças à união de raro talento a muuuuito dinheiro. Algo tão paradoxalmente alienante , que, admirados, nem pensamos em questionar a provável fonte de renda de alguns dos contratantes, tudo em nome da arte e da beleza !

A palestra serviu para demonstrar a versatilidade do BIM para projetos específicos, mas embora embasbacados com tão belas vistas e fachadas ,  só o filme nos permitirá passear por alguns dos aposentos destes palácios modernos. 

Um pedaço de High Line na Liberdade.

Uma das coisas boas que nos oferece o mundo de hoje mais integrado, é a possibilidade de podermos comparar soluções e ideias propostas para realidades distintas, mais ainda , tais soluções e ideias não ficarem disponibilizadas unicamente a um grupo seleto de conhecedores. Quem lê ou viaja pode muito bem participar da discussão.

A High Line é um interessante projeto de revitalização de espaço urbano , especificamente numa determinada área antiga de Manhatan, gestado pela comunidade local , que não concordando com a demolição de uma ferrovia desativada , lutou para transformá-la num imenso jardim aéreo.

É comum vermos prefeitos de cidades grandes utilizá-la como comparativo para todo tipo de intervenção mais radical que pretenda patrocinar no centro urbano . O caso de São Paulo é o que mais salta a vista , como lá existe o minhocão, uma estrutura aérea feia de concreto armado , vira e mexe pensam em inutilizá-la para o trânsito de veículos  e também transformá-la num  jardim supenso . 

Não há como comparar os dois casos , em primeiro lugar porque no caso Nova-iorquino a ferrovia ficou quase trinta anos largada até sofrer a primeira intervenção paisagística importante , já em São Paulo a aposentadoria do Minhocão teria de ser precedida por uma alternativa viária , já que bem ou mal a estrutura ajuda no desafogo do trânsito, portanto ,tem serventia.

Não me estendo demais sobre a beleza da paisagem que se tem ao passear pela High Line , aliás , segundo os criadores do projeto este fato foi determinante  para a criação do parque , a começar pela vista do Empire State e da estátua da liberdade . Não agrada tanto aos olhos o que se vê lá de cima do Minhocão , no mais a High Line é um parque para todos os dias e horas da semana, cerca de 2 milhões de pessoas passam por lá diariamente , e não uma rua de lazer de final de semana.

Não é necessário se copiar toda a grande ideia , é perfeitamente possível adaptar-se aquilo que nos serve ou que seja de aplicação viável. 

Uma das atrações da High Line são as arquibancadas dispostas nos viadutos  por onde cruzam as  avenidas nova-iorquinas . Nelas os passeantes se socializam enquanto podem assistir ao fluxo intermitente de veículos . A mesma solução encontramos agora no bairro da liberdade, especificamente no viaduto cidade de Osaka sobre a avenida Radial Leste.  

Há seis meses atrás não havia o ponto de encontro instalado e agora estava lá, ocupado por jovens da mesma forma que fazem na High Line. Aliás, qualquer intervenção urbana só é válida se for atestada pela ocupação do povo.